domingo, 14 de junho de 2020

Kardec e a Política no Centro Espírita

No início do ano de 1862, com a Doutrina Espírita em franco crescimento na Europa, Allan Kardec, que recebera diversas cartas com mensagens pela passagem de ano, sente-se compelido a responder seus interlocutores. Mas como as mensagens contavam-se às centenas, vê que é impossível respondê-las individualmente. Sendo assim, resolve publicar uma longa carta resposta na Revista Espírita de 1862. A carta divide-se em agradecimentos, conselhos e recomendações.

Dentre as diversas recomendações, uma delas ganhou particular atenção, dada a sua importância, permanecendo ela atualíssima em nossos dias. Referindo-se às discussões políticas dentro dos centros e agremiações espíritas, Kardec diz:

"Devo ainda assinalar-vos outra tática dos nossos adversários, a de procurar comprometer os espíritas, induzindo-os a se afastarem do verdadeiro objetivo da doutrina, que é o da moral, para abordarem questões que não são de sua alçada e que, a justo título, poderiam despertar suscetibilidades e desconfianças. Não vos deixeis cair nessa armadilha; afastai cuidadosamente de vossas reuniões tudo quando se refere à política e a questões irritantes; a tal respeito, as discussões apenas suscitarão embaraços, enquanto ninguém terá nada a objetar à moral, quanto esta for boa. Procurai no Espiritismo aquilo que vos pode melhorar: eis o essencial. Quando os homens forem melhores, as reformas sociais realmente úteis serão uma consequência natural; trabalhando pelo progresso moral, lançareis os verdadeiros e mais sólidos fundamentos de todas as melhoras, e deixareis a Deus o cuidado de fazer com que cheguem no devido tempo. No próprio interesse do Espiritismo, que é ainda jovem, mas que amadurece depressa, oponde uma firmeza inquebrantável aos que quiserem vos arrastar por uma via perigosa".


Vemos a preocupação de Kardec com a questão da inserção de assuntos político-partidários-ideológicos dentro do seio da Doutrina Espírita. Sabia ele que isso afastaria os espíritas do verdadeiro objetivo da doutrina - a melhoria moral do homem. Sabia ele que isso causaria a disseção e divisão dentro dos grupos. Pior que isso, levaria às brigas e discussões intermináveis e estéreis, que nada tem a ver com o Espiritismo, levando seus adeptos a se separarem ao invés de se unirem. E não temos visto isso ocorrer nos tempos atuais? Grupos romperem trabalhos luminosos devido às contendas de caráter político? Ficarem à mercê das trevas e da obsessão?

Temos de nos lembrar que seremos responsáveis por tudo de mal que fizermos, e por todo o bem que deixarmos de fazer. Dentro da casa espírita temos o dever de calar certos ímpetos que não são convenientes ao ambiente. Com relação a isso, o próprio Espírito de Verdade, em mensagem no capítulo XX do Evangelho Segundo o Espiritismo, nos ensina:


Felizes serão os que houverem dito a seus irmãos: "Trabalhemos juntos, e unamos os nossos esforços, a fim de que o Senhor, na sua vinda, encontre a obra acabada", porque a esses o Senhor dirá: "Vinde a mim, vós que sois os bons servidores, vós que soubestes calar os vossos melindres e as vossas discórdias, para que a obra não saísse prejudicada!"


A mensagem é clara e inequívoca: calemos as nossas discórdias para não prejudicar a obra do Espiritismo. Se não contivermos nosso orgulho, nosso ego e nossa vaidade tão vãs, traremos empecilhos graves ao bom andamento do trabalho do Consolador. O trabalho do Espiritismo encontra-se na modificação do coração do homem. Se o coração do homem for mudado para melhor, a evolução das questões sociais se fará naturalmente.

É claro que a recomendação de Kardec não implica em dizer que nós, espíritas, não possamos ter o nosso posicionamento político. Podemos sim, e até temos isso como dever de cidadãos. O que não podemos estar fazendo é impor nossos pensamentos dentro de nossos grupos e agremiações, pois todos sabemos até onde isso pode levar. A casa espírita é local de trabalho, harmonia, respeito mútuo para o desenvolvimento do Amor, conforme o Cristo nos recomendou.

Unamos nossas mãos portanto, independente de nosso posicionamento político. Em Espiritismo, nosso pensamento deverá ser um só: "Amai-vos e instrui-vos". Dessa forma, estaremos colaborando para a manutenção de um ambiente de verdadeira união, fraternidade e espiritualidade.

Sigamos com o Cristo.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

O Aborto na Visão Espírita


Muito se tem falado da questão do direito ao aborto nos dias atuais. Movimentos ideológicos, políticos, partidos e ONGs alegam o "direito  ao corpo" que as mulheres teriam. Argumento similar é utilizado também pelos que pregam o direito à eutanásia e ao suicídio. Mas qual a opinião do Espiritismo com relação ao aborto? Para responder a esse pergunta, analisemos diretamente as bases da Doutrina. O Livro dos Espíritos, em sua questão 358 diz:


358. Constitui crime a provocação do aborto, em qualquer período da gestação?

“Há crime sempre que transgredis a lei de Deus. Uma mãe, ou quem quer que seja, cometerá crime sempre que tirar a vida a uma criança antes do seu nascimento, porque impede uma alma de passar pelas provas a que serviria de instrumento o corpo que se estava formando.”

Ou seja, o Espiritismo coloca-se diametralmente contra a prática do aborto. Em consonância com Kardec, diversos autores espirituais (Emmanuel, André Luiz, Luis Sérgio etc), bem como médiuns, estudiosos e oradores renomados, também são contrários. O aborto para o Espiritismo é um crime contra uma vida inocente e indefesa.

Mas e a questão do "direito ao corpo"? A mulher não teria o direito sobre ele?

A resposta é que temos um direito parcial sobre nosso corpo.  Ele é um "empréstimo" tomado da economia universal para que possamos desenvolver uma nova reencarnação. Essa massa de matéria viva nos é dada no momento de nossa concepção para que dela nos sirvamos segundo nosso livre arbítrio, e nos é tomada no momento da morte, quando seguimos como Espíritos desencarnados. Essa 'tomada' já nos indica que não somos senhores supremos do nosso corpo, pois Deus pode nos separar dele, a qualquer momento, quando julgar necessário. Somos donos apenas de nossas aquisições intelectuais e emocionais, já que nada nos pode separar delas. Nem mesmo a morte, já que inteligência, emoção e sentimentos são atributos intrínsecos do Espírito.

Além disso, devemos notar que, mesmo que tivéssemos total posse sobre nossos corpos materiais, no caso de uma gestação, o feto tem seu próprio corpo. É novo binário espírito-corpo, que já iniciou a sua encarnação. Dessa forma, não podemos simplesmente decidir por ele.


"Qual o primeiro dos direitos naturais do homem?
O de viver.
O Livro dos Espíritos, questão 880.


Mas existe algum caso onde seja aceitável o aborto, dentro da Doutrina Espírita? O próprio Kardec já questionava isso:

359. No caso em que o nascimento da criança puser em perigo a vida da mãe, haverá crime em sacrificar-se a primeira para salvar a segunda?

“Preferível é se sacrifique o ser que ainda não existe a sacrificar-se o que já existe.”

Ou seja, no caso específico e comprovado de risco de morte para a mãe, deve-se dar a preferência ao espírito que já está encarnado. O reencarnante perde temporariamente a oportunidade do renascimento, mas poderá tê-la futuramente, muito possivelmente com a mesma mãe.

Entretanto, apesar de tantas admoestações claras contra o aborto, muitos espíritas, caem no erro de propalar as ideologias ditas 'modernas' de "direito ao corpo", em completo desacordo com a Doutrina Espírita. Criam narrativas e interpretações que desfiguram o pensamento espírita. Chegam ao extremo de dizer que Kardec não tem legitimidade para falar, e tentam desmerecer e ridicularizar pensadores espíritas e médiuns de todos os tempos, no afã de desmoralizar a doutrina, forçando-a a aceitar o inaceitável e transformando-a segundo os seus interesses.

Dizem que o Espírita não deve posicionar-se politicamente contra o aborto, pois o Estado é laico, e não podemos (segundo eles) decidir pelos outros. Mesmo sendo isso é princípio básico da Democracia. Se seguirmos por essa lógica, também não poderemos, tendo por base uma religião, nos opor ao armamento generalizado, à pena de morte, às desigualdades sociais. Ora, se como espírita, posso posicionar-me politicamente contra as armas, contra a pena de morte e contra as desigualdades, por que motivos não posso ser contrário o aborto?

O aborto é crime contra as Leis Divinas. O Espiritismo, em suas obras básicas e complementares, posiciona-se claramente contra ele e em prol da Vida. Tomemos também a nossa posição, lembrando o que O Cristo disse: "Quem não está comigo, está contra mim" (Mt. 12,30).

Espíritas! Não nos escondamos mais! Defendamos a nossa filosofia! Propaguemos a verdade nela contida, resistindo à onda nefasta que busca derrubá-la. Trabalhemos juntos continuamente para que o Espiritismo continue sendo Luz, Consolação e Esperança para as gerações atuais e as vindouras!

Sigamos adiante.