Em "O Livro dos Médiums" Allan Kardec, no capítulo 6 - "Das Manifestações Visuais" discorre sobre a questão das aparições espirituais. Logo no início informa que o fenômeno, apesar de estar entre os mais interessantes dentro do estudo do Espiritismo, não é algo sobrenatural, mas exatamente como todos os outros fenômenos estudados pela Doutrina, é algo absolutamente explicável dentro do rol das Leis Naturais.
Em diversas perguntas aos Espíritos da Codificação, Kardec explica que as aparições são possíveis a quaisquer classe espiritual, desde os mais primitivos aos mais evoluídos, sendo que o que motiva cada um varia enormemente. Os primitivos buscam divertir-se, assustar ou vingar-se, muitas vezes tentando causar medo aos que os vêem. Já os mais evoluídos buscam propósitos superiores como a promoção da crença na vida após a morte, a esperança e o bem estar geral.
Mas adiante, no mesmo capítulo, fala da possibilidade desses espíritos tomarem formas diversas, por exemplo quando pergunta se as 'asas' que algumas aparições apresentam são realmente parte do Espírito:
Os Espíritos que aparecem com asas têm-nas realmente, ou essas asas são apenas uma aparência simbólica?
“Os Espíritos não têm asas, nem de tal coisa precisam, visto que podem ir a toda parte como Espíritos. Aparecem da maneira por que precisam impressionar a pessoa a quem
se mostram. Assim é que uns aparecerão em trajes comuns, outros envoltos em amplas roupagens, alguns com asas, como atributo da categoria espiritual a que pertencem.”
O propósito disso é adequar-se à fé e as crenças de quem desejam passar alguma boa mensagem. A aparência angélica causa a tranquilidade, o conforto e a credibilidade para pessoas de diversas crenças religiosas. Assim, fica mais fácil transmitir algo de bom, alguma mensagem edificante.
Um interessante ponto de esclarecimento nesse capítulo é aquele em que Kardec pergunta o porque de tais aparições não serem generalizadas e por que não ocorrem amplamente, para que todos possam crer na existência dos Espíritos:
Que inconveniente haveria em ser permanente e geral entre os homens a possibilidade de verem os Espíritos? Não seria esse um meio de tirar a dúvida aos mais incrédulos?
“Estando o homem constantemente cercado de Espíritos, o vê-los a todos os instantes o perturbaria, embaraçar-lhe-ia os atos e tirar-lhe-ia a iniciativa na maioria dos casos, ao passo que, julgando-se só, ele age mais livremente. Quanto aos incrédulos, de muitos meios dispõem para se convencerem, se desses meios quiserem aproveitar-se e não estiverem cegos pelo orgulho. Sabes muito bem existirem pessoas que hão visto e que nem por isso crêem, pois dizem que são ilusões (...)
Se as aparições fossem generalizadas, a infinidade de Espíritos terminaria por perturbar os encarnados. Além disso, e mais importante ainda, tal fenômeno terminaria por dificultar que os encarnados se utilizassem livremente de seu livre arbítrio, tirando-lhes a iniciativa na maioria dos casos. Muitos atos nefastos somente são praticados quando o executor pensa estar só, de forma que não seja condenado depois. A constante visão dos Espíritos tiraria essa escolha de muitos. A uma primeira vista, alguns poderiam argumentar que isso seria bom, pois grande parte das violências humanas supostamente deixariam de existir. Mas a questão não é tão simples assim. A decisão de fazer ou não o mal deve ser escolha particular de cada um. Se uma pessoa não faz o mal por que há o medo de ser condenada por que a observa, que mérito há nisso? O mérito de deixar de lado o mal e fazer o bem deve estar na consciência do homem, e não no medo. Assim, a virtude da benevolência deve ser conquista particular de cada um. E isso não se aprende por imposição, mas por esforço particular de compreensão e vivência no bem. Não é algo que possa ser imposto 'de fora para dentro'. É algo que aflora 'de dentro para fora'. E o Criador não deseja Espíritos que temam fazer o mal. Ele quer Espíritos que desejem fazer o Bem. Essa é a atitude.
Dessa forma, a resposta dos Espíritos à questão das aparições generalizadas é perfeita e plenamente esclarecedora: seria muito mais prejudicial que benéfica, terminando por trazer confusão e tolhendo a evolução particular dos encarnados.
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