sábado, 18 de agosto de 2018

Suicídio vs Homicídio


Por que o suicídio é considerado crime mais grave que o homicídio?


Le Suicidé, pintura de Edouard Manet.


É entendimento inabalável na Doutrina dos Espíritos, que tanto o suicídio quanto o homicídio são crimes graves perante as Leis Divinas. Pode-se verificar isso facilmente no estudo de O Livro dos Espíritos nas questões 943 a 957, que tratam do suicídio, e nas questões 747 a 751, sobre o homicídio. Além disso, é senso comum entre nós Espíritas, que o suicídio é crime bem mais grave que o homicídio. Os Espíritos tem repetido essa afirmação continuamente. Livros foram escritos relatando a situação complicada daqueles que se suicidam. Veja-se por exemplo a obra espírita mais famosa que trata do assunto, “Memórias de um Suicida”, da médium Yvonne do Amaral Pereira. O livro conta a triste história do escritor Camilo Cândido Botelho, supostamente pseudônimo do famoso escritor português Camilo Castelo Branco, que cometeu suicídio em 1890. Liberto do corpo, alcança o mundo espiritual em estado de extremo desequilíbrio, passando anos em pesados sofrimentos no Vale dos Suicidas, sendo finalmente resgatado por voluntários de uma comunidade espiritual chamada Hospital Maria de Nazaré.

Fica patente na maioria dos relatos de espíritos suicidas o supremo sofrimento ao qual se condenam, sendo sempre mais doloroso que os crimes de assassinato. Para muitos fica o questionamento: por que? Como um crime cometido contra si próprio e levado a conta por sua própria vontade pode ser mais condenável que aquele que tira a vida a um terceiro, que muitas vezes implora pela vida?

Essa pergunta costumava consternar minha mente com certa frequência. O fato simplesmente não parecia ter lógica e cheguei por vezes a duvidar das afirmações de certos espíritos. Me perguntava como a Lei “punia” os suicidas de forma mais severa que os homicidas. Por muito tempo me questionei e meditei sobre o problema. Somente após anos de espiritismo cheguei a uma conclusão adequada e racional. Nesse artigo tento explicá-la. Espero que possa auxiliar outros espíritas, que tenham as mesmas dúvidas, da mesma forma que me auxiliou.

Capa do livro "Memórias de um Suicida".



O Homicídio

O homicídio é um dos crimes tipificados como mais perversos tanto nas leis humanas como nas leis divinas. Vai contra um dos direitos mais básicos do ser humano: o de viver. Além disso, do ponto de vista materialista, um assassinato priva a vítima subitamente de todos os outros direitos a que ela tem e que terá, a todas as suas conquistas, alegrias felicidades atuais ou futuras. Já do ponto de vista espiritualista, a vítima tem sua atual jornada evolutiva (sua encarnação presente) estancada temporariamente. Ou seja, ela terá ainda novas oportunidades em encarnações subsequentes.

Há de se observar que as maldades que o homem comete podem ser usadas por Deus como ferramenta para a evolução do próprio homem. Assim, alguém que seja bruto em uma vida poderá [1] sofrer brutalidade de outrem nessa mesma vida ou em vidas seguintes. O objetivo dessa reação da Lei Divina (a Lei do Retorno) é fazer esse espírito perceber o quão mal suas vítimas se sentem devido a ações dele. Assim, da mesma forma que uma criança educada pelos pais, ele sentirá “na pele” a dor que causou aos outros.

Assim, a ação malévola de um assassino pode ser usada por Deus como uma forma de “catalisador evolutivo” de um espírito que tenha praticado assassinatos em vidas passadas, ou mesmo nessa. Em  casos mais extremos, pode um Espírito até solicitar ao reencarnar que sua vida seja tolhida através de um ato violento. Isso como forma de expiação de débitos passados, ou como missão [2]. É solicitação dele, que pode ser aceita ou não pelos Espíritos responsáveis por sua encarnação. Nesse caso entretanto, é importante fazer notar que isso não implicará automaticamente que Deus determinará algum assassino para ele. Isso será deixado a par do livre arbítrio dos homens. Caso não haja, no decurso da reencarnação desse espírito, uma pessoa que intente de própria vontade contra sua vida, ele morrerá de outras causas. Deus nunca determinará que alguém faça o mal. Ninguém poderá alegar matar por determinação divina. Jamais.

Por outro lado, podemos dizer que aqueles espíritos que não tem em seu planejamento reencarnatório a possibilidade de ser assassinados, terão uma grande proteção do Plano Espiritual contra esse tipo de incidente. Entretanto, é necessário que não criem situações que coloquem suas vidas em risco. Já diz o ensinamento do Cristo: “não tentarás o senhor teu Deus”. O homem que se expõe a situações violentas, poderá ser vítima delas mesmo que isso não esteja planejado.

Assim, através dessa sequência de raciocínio, pudemos ver que a Providência Divina pode usar (e definitivamente usa) atos maus, revertendo-os para o bem das criaturas, ao mesmo tempo em que respeita o direito ao livre arbítrio dos homens.



O Suicídio

O suicídio, ao contrário do homicídio, parece causar uma quantidade de mal menor, já que há na maioria dos casos, apenas uma pessoa envolvida. Além disso, o suicida comete o ato por sua própria vontade. Analisemos, entretanto, com mais detalhes.

O primeiro ponto a observar é que, da mesma forma que Deus não determina que existam assassinos, Ele também não determina que existam suicidas. Assim, ninguém poderá alegar que se matou por que Deus ordenou ou porque tinha débitos do passado. A Providência Divina deseja acima de tudo a salvação de Seus filhos, e não a sua aniquilação.

Vimos anteriormente que Deus pode permitir que um assassinato ocorra caso exista benefícios para a vítima (ver sessão anterior). Dessa forma, uma ação má é revertida em bem. O mesmo não pode ser dito do suicídio. Lembremos, ninguém nasce determinado a se suicidar para quitar débitos. E muito menos por missão. Ou seja, não há o que reverter. Não há bem que se possa tirar disso.

Alguém poderia perguntar: “Se ele não está pré-determinado a se matar, por que os Espíritos simplesmente não o protegem?” É uma questão válida. Os Espíritos Prepostos tem dificuldade em proteger o suicida de seus atos, já que tem o dever de respeitar seu livre arbítrio. Sabemos de diversos casos de tentativas que falharam. Isso nos indica que a Espiritualidade trabalha por aquele que está prestes a cometer o ato infeliz. Mas, se as tentativas se repetem, chegará dia em que ele não poderá mais dispor da proteção do Alto.

Outro problema gravíssimo causado pelo suicídio é a destruição do planejamento reencarnatório de  grupos de espíritos. Como isso ocorre? Bem, tomemos um exemplo simples. Digamos que cinco espíritos planejam reencarnar para constituir uma família. Vamos supor que um casal encarne primeiro, e os três restantes reencarnarão dentro de vinte anos, como seus filhos. Entretanto, antes mesmo que o casal se conheça (o correto aqui seria dizer “se reencontre”) encarnados, um deles tenha cometido o suicídio. O que ocorre com o grupo? Certamente seriam bastante prejudicados, já que precisavam reencarnar juntos. Certamente precisarão rever todo o planejamento e, talvez, atrasar o processo por décadas. Esse tipo de problema ocorre com frequência no nosso planeta. Nesse contexto, podemos dizer que o grande problema do suicídio é que ele não é um ato planejado, não é esperado e é difícil de ser previsto pelos Espíritos. Termina causando efeitos muito indesejáveis para a coletividade, problemas esses difíceis de serem contornados, quiçá plenamente resolvidos.

Conclusão

Podemos perceber, pesando ambos os atos (homicídio vs. suicídio) os motivos que levam a fazer com que o segundo termine sendo causador de muito mais dificuldades para os envolvidos. O primeiro poderá sempre ser usado como ato reparador de erros do passado, como um catalisador evolutivo da vítima, ajudando-a a solver seu carma. O homicídio poderá ser para a vítima o remédio amargo a curá-la de enfermidade espiritual de longa data. Já o segundo, o suicídio, será sempre e puramente um gerador de carma, o início da doença, que levará o infrator a anos de labuta para a própria regeneração.

Entretanto, uma observação deve ser feita. Apesar de ambos os atos serem considerados crimes contra a Lei, a Bondade Divina nunca relega Seus filhos ao sofrimento eterno. Deus sempre fornecerá novas oportunidades de reparação. Ele estará sempre ao nosso lado, mesmo que nós “desistamos dEle”. O poema “Pegadas na Areia” (“Footprints in the Sand”, de Margaret Fishback Powers), constrói uma metáfora belíssima, que conta da determinação de Deus em nos acompanhar, mesmo nas situações mais difíceis. Lembremos então: nunca estaremos sós! Os erros que cometemos, um dia ficarão num passado distante, quando nos reabilitarmos definitivamente. Sejamos homicidas, suicidas ou qualquer outro transgressor, tenhamos a certeza que, mesmo enfrentando a dor e a dificuldade, voltaremos aos braços do Pai Criador, pois essa é a Sua Vontade Soberana.

[1] Usei o verbo “poder”, com o sentido de “possibilidade”, pois o simples fato de fazer o mal numa vida não condena definitivamente uma pessoa a sofrer desse mesmo mal em outra. Sabemos que o Amor “cobre a multidão dos pecados”, como ensinou Jesus. Dessa forma, podemos “quitar” nossos débitos através de contínuos atos de amor, fraternidade, compreensão, perdão etc.

[2] Como missão: ver o caso de Jesus por exemplo. Ele nada devia à Lei, mas era necessário, segundo as escrituras, que ele desencarnasse daquela forma.

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