Muitas pessoas criticam o Espiritismo achando que o mesmo foi criado e apoia-se sobre crendices de várias fontes diferentes. Enorme engano. O Espiritismo nasceu dentro de um ambiente científico. O codificador da Doutrina Espírita, o senhor Hippolyte Léon Denizard Rivail (pronuncia-se Hipolitê León Denizar Ravaí), mais conhecido pelo seu pseudônimo Allan Kardec, era na época famoso educador, pedagogo, escritor e tradutor francês, autor de métodos de aritmética e gramática francesas, tendo estudado no famoso Instituto Pestalozi em Yverdom (Suíça) e posteriormente lecionado Química, Matemática, Astronomia, Física, Fisiologia, Retórica, Anatomia Comparada e Francês [1].
Em idade madura, Kardec interessou-se pelos fenômenos de Magnetismo Humano ou Magnetismo Animal, estudados e divulgados por Franz Anton Mesmer. Em 1854 um grande amigo de Kardec, o senhor Fortier, o convidou a observar um fenômeno muito comum na sociedade europeia naqueles tempos, chamado de "As Mesas Girantes". Segue-se um diálogo entre eles [2]:
O sr. Fortier um dia falou-lhe: “Eis uma coisa mais do que extraordinária — não somente magnetizam uma mesa, fazendo-a girar, mas também a fazem falar; perguntam coisas e a mesa responde”.
Allan Kardec replica: “Isto é outra questão: acreditarei quando puder ver com os meus próprios olhos e quando me provarem que a mesa tem um cérebro para pensar, nervos para sentir e que pode tornar-se sonâmbula: por enquanto, seja-me permitido dizer que tudo isso me parece um conto para fazer dormir em pé”.
Aí temos uma primeira vista do ceticismo de Kardec. É sabido que ele havia negado outros convites para estudar tal fenômeno. Entretanto, após observar algumas sessões a pedido do sr. Fortier, Kardec se convence de que o fato merecia ser estudado e passa a buscar a origem do movimento das mesas e qual a fonte das respostas inteligentes dadas por elas.
Tempos depois em a introdução de "O Livro dos Espíritos" ele mesmo esclarece:
"O ser misterioso que assim respondia, interrogado sobre a sua natureza, declarou que era Espírito ou Gênio, declinou um nome e prestou diversas informações a seu respeito. Há aqui uma circunstância muito importante, que se deve assinalar. É que ninguém imaginou os Espíritos como meio de explicar o fenômeno; foi o próprio fenômeno que revelou a palavra. Muitas vezes, em se tratando das ciências exatas, se formulam hipóteses para dar-se uma base ao raciocínio. Não é aqui o caso."
Nessa mesma introdução, Kardec dedica alguns trechos à questão do embuste, fato comum já em sua época. E no "Livro dos Médiuns", dedica um capítulo inteiro ao assunto: o de número 28 - "Do Charlatanismo e do Embuste". Isso demonstra uma preocupação especial de Kardec ao problema da fraude dentro do espiritismo.
Não somente fraudes são indicadas como perigos a serem enfrentados, mas também a tendência de muitas pessoas em aceitar como verdadeiras, facilmente e sem racionalizar, certas 'histórias maravilhosas'. Em a "Revista Espírita" de março de 1863, no artigo "Fotografia de Espíritos", Kardec escreve:
"(...) é preciso pensar maduramente antes de atribuir aos Espíritos todos os fenômenos insólitos que se não podem explicar. Um exame atento mostra, na maioria das vezes, uma causa inteiramente material, que não tinha sido percebida. É uma recomendação expressa que fazemos em O Livro dos Médiums".
Nesse mesmo artigo Kardec conta a história de um rico lorde (ele não expõe o nome) que perdera sua irmã e entrara em lastimável e duradoura angústia. Abandona sua atividade preferida, a fotografia, e passa cerca de quatro anos em viagens. Ao regressar, torna a se interessar pelo antigo hobbie e, após uma sessão de fotos na capela onde fora sepultado o corpo da amada irmã, percebe que o positivo mostrava a silhueta dela, transparente mas em perfeitos detalhes.
Sua primeira reação foi crer numa aparição, mas logo percebeu seu engano. O efeito fora obtido acidentalmente através do que conhecemos hoje como dupla exposição. Anos antes ele havia utilizado aquela mesma placa para tirar uma fotografia da irmã.
Deve-se notar o extremo cuidado que Kardec teve com a "filtragem" dos fatos que chegaram até ele. Sobre isso, há uma famosa frase atribuída a ele: "É melhor rejeitar mil verdades que aceitar uma só mentira".
Que o exemplo de razão, bom senso, discernimento e espírito científico do Ilustre Codificador ilumine os Espíritas da atualidade.
[1] http://pt.wikipedia.org/wiki/Allan_Kardec
[2] http://www.espirito.org.br/portal/cursos/cbe-adep/caderno01-kardec.html
Esse artigo eu terei de imprimir para usar em minhas aulas de evangelização!
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